Voltei de Portugal apaixonada pelos intrépidos navegantes portugueses que zarparam do pontão de Lisboa cuja última imagem de terra firme era a Torre de Belém. Mas é sobre as pegadas deixadas que escrevo , pois não há como escaparmos da nossa História, onde quer que se aloje, onde quer que haja chão para gravá-la.

Uma das intrigantes imagens que guardamos forte é a de pegadas do Homem ou Animal quando com elas nos deparamos. Reconhecidas, tanto uma como outra, o medo do que é desconhecido se esconde.

Lembremos do Homem na Lua. Do leão na floresta circundada pela proteção em um safári. Dos arqueólogos em busca de pegadas fossilizadas para decifrar animais e homens de há milhões de anos.

Sou fascinada por pegadas e foi assim que aconteceu: da pegada preta da sola de um sapato que um ladrão deixou na cortina da minha casa de infância faço o percurso das pegadas sinalizadas no chão da minha alma. Umas estão vivas, outras agoniantes e ainda outras cristalizadas como na vitrine do museu. Foi quando parti mundo afora em busca de pegadas históricas. E foi em Portugal que dei aos exploradores de novas terras espaço para marcar sua pegada no meu coração, pegada construída com fantasia e curiosidade, história e geografia. Mergulhei no mar português cor de chumbo dos navegantes, heróis sem possível volta.

É em poesia que nos conta a portuguesa Sofhia de Mello Breyner Andresen suas proezas e coragem:

Navegavam sem o mapa que faziam

(Atrás deixando conluios e conversas
Intrigas surdas de bordéis e paços)

Os homens sábios tinham concluído
Que só podia haver o já sabido:
Para a frente era só o inavegável
Sob o clamor de um sol inabitável.

Indecifrada escrita de outros astros
No silêncio das zonas nebulosas
Tremula a bússola tacteava espaços

Depois surgiram as costas luminosas
Silêncios e palmares frescor ardente
E o brilho do visível frente a frente

A Terra plana no horizonte, lá onde ele risca o céu em linha reta, acreditavam, caírem no precipício, no desconhecido. Não caíram no precipício e alcançaram o desconhecido. Marinheiros de primeira viagem, estudiosos dos mapas mundi, estes homens não aceitavam ser esta a verdade e convictos pensavam: “novas terras hei de conquistar, rico e glorioso voltarei”!

Tenho especial simpatia por Cristóvão Colombo, – apesar de sob as ordens dos reis de Espanha- ele não foge da minha mente – quando do alto do mastro da nave Nina gritou-se “Terra”, “Terra”, exultante, certo em sua obstinada crença que teria descoberto o caminho para as Índias, coitado, havia aportado na pobre ilha que dizem ter sido Cuba.

Penso na sua primeira pegada em terra firme. Angustiada, imagino-o desembarcar depois de meses em mar alto de calmaria, consultando o astrolábio e compassos e se deparar com seres nus, sem pelo no corpo, amigáveis, mas em terra sem ouro e pedrarias como esperado. Retornou com papagaios e macacos uma vez que frutas e flores pelo caminho apodreciam.

Colombo, meu herói, apesar do fracasso como de tantos outros visionários, pode não ter chegado ao seu destino cartográfico, mas é para mim o único descobridor da América , mesmo se os livros apontam Américo Vespúcio ao batizar com seu nome o hoje continente que habito, o Norte e Sul das Américas.

Que triste pegada Colombo deixou em meu coração!

Até hoje a América do Sul não encontrou seu rumo assim como Colombo voltou de mãos vazias. Os mesmos índios ainda sem lugar, as mesmas riquezas desperdiçadas, o colonialismo contaminado, sem identidade própria, sem mapa e futuro. Deixou ao Deus dará a terra dos índios para ser dilapidada de suas riquezas. Deixou para trás o meu continente, uma terra sem juízo.

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