No quarto 36 de um hotel barato, enquanto olhava para o pátio onde crianças brincavam com latinhas, Camila sentiu uma pinçada ao lado do coração.

Procurou saber o porquê da dor que aumentava à medida que se sentia mais só e desamparada. Gostaria de ter dinheiro para ficar em um hotel com uma vista mais aprazível, mas tinha que conseguir, ainda hoje, um encontro com o editor. Mais uma noite dormindo no hotel e não teria dinheiro para comprar sua passagem de volta para casa.

Camila, escritora de meia idade que vivia do seu oficio, sentou-se frente à janela, no que parecia ser uma escrivaninha, mas, quando quis colocar seus pés por debaixo dela, percebeu que era uma cômoda também. Ficou assim, de lado, desconfortável, como os sentimentos que a impulsionavam a sentar e escrever. “Nasci em uma família de muitos irmãos”… riscou tudo!

Sim, Camila havia nascido em uma família de muitos irmãos, mas neste momento apenas um, o João, um ano e três meses mais velho, interpôs-se entre ela e o papel. O sentimento de mal-estar transformou-se em enjoo, como se seu estômago fosse uma eclusa.

“Meus pais sempre deram aos filhos o melhor que podiam”, recomeçou, “mas a atenção deles era mais voltada para os meus quatro irmãos maiores do que para mim e João, os caçulas.

Vivíamos num sítio perto de Botucatu e nossa infância foi tranquila, a natureza em sua forma original. Em volta da casa, a terra rala. Vasos de arruda, a caixa d’água bem tampada, um varal com vários cordões para caber toda a roupa
da família que minha mãe lavava no tanque atrás da casa, ao lado da cozinha ampla. Há uns passos de lá, um galinheiro, um chiqueiro e o pasto para o gado de leite.

Mais adiante, nas três casas, bem menores do que a nossa, moravam as famílias que ajudavam meu pai na lavoura. Plantávamos toda espécie de verduras. Embaixo de um galpão de alambrado, uma trepadeira de maracujá e as ramas de chuchu faziam sombra para não queimar as hortaliças que abasteciam as vendas e pequenos supermercados da cidade. Árvores de limão e laranja, pés de café, tufos de abacaxi, mandioca em grande extensão.

Tínhamos também mangueiras e abacateiros frondosos que nos abrigavam do sol escorchante e prolongado no seu sono tardio.”

Menos aflita, Camila releu o que havia escrito e decidiu continuar. Recordou-se da resplandecência do lugar onde nascera, esquecendo a pobreza a qual a família fora reduzida quando seus pais venderam o sítio certos de que seus filhos poderiam estudar em uma escola da cidade, não mais aquela da professora Áurea, que dava aulas para crianças de colonos, numa mesma classe, vários anos juntados sob uma única batuta: a dela.

Foi nesse momento que emergiu para Camila a foto que ficava em cima da estante da televisão, onde ela e João apareciam abraçados embaixo do manguezal. Subitamente lembrou-se de João nu, brincando com ela, também nua, na prainha que o rio formava mais abaixo da casa. Seu mal-estar voltou e tentou descrevê-lo para si, não sem certa dificuldade, pois não conseguia apoderar-se da imagem temida.

“Lembro que, numa dessas tardes, João e eu fomos até o rio para um banho de água fria. Sentamos embaixo de uma pequena formação de pedras e deixamos o jorro de água bater nas nossas costas. Não deve ter sido bem assim, porém é como essa bucólica e refrescante imagem ficou incisa em mim. Vi João cerrando os olhos e a água espirrando contra a luz, a sua e a minha mão sob a água transparente.

Não sei, hoje, como João se sente ao relembrar esse dia, se ainda se recorda que seus dedos começaram a me acariciar no espaço entre os lábios da minha vagina à vista, onde sequer pelos púbicos haviam crescido.

Sinto ainda o prazer suave desse gesto, e lembro que coloquei minha mão sobre a dele e o ajudei a tocar-me com mais profundidade. A pedra era como uma superfície de cama na qual cabiam dois corpos de crianças púberes. A água jorrava sobre a minha cabeça em intervalos suficientemente curtos para que eu buscasse ar e meus olhos vissem o peito de João sobre mim. A sensação era de que ele tentava colocar alguma coisa entre as minhas pernas sem conseguir, e que ofegava muito.

Gostei da brincadeira, que se repetiu muitas vezes, sempre no mesmo lugar, do mesmo jeito, até o dia em que mudamos para a cidade onde não corria rio e nunca mais tomamos banho juntos.

Crescemos em silêncio pesado, perdidos e excitados, um fosso profundo, vazio e sem cor, construído entre nós.”
Recostou-se e confessou ao papel, esticando as pernas:

“Depois de tantos anos, mesmo tendo vivido relações amorosas, creio que este foi o momento de amor na minha vida. Não penso em meu irmão quando busco momento igual. Descobri outras razões de prazer, mas nunca a do frescor da água limpa e pura numa tarde de sol ingênuo tomando banho de rio.”

Camila acordou do seu devaneio ao toque do telefone. Era o editor marcando um encontro no café da esquina do hotel. Ele a esperava para receber o manuscrito de um conto para crianças onde o mal não existia. Sorriu, acenou para uma criança que ainda brincava no pátio e saiu para sua história e vida.

Este texto foi extraído do livro “21 Quartos de Hotel“, de Bettina Lenci.

Leia a obra completa clicando aqui.

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