A gerência do Motel Intimu’s surpreendeu os fiéis clientes do quarto 216 com pétalas de rosas brancas espalhadas sobre a cama de colcha negra e, como oferta da casa, o champanhe gelado à borda da jacuzzi ornada com velas.
Nesse quarto Eduardo e Elenice desfrutariam a sua primeira noite de casal legitimado.
Ao som de Roberto Carlos, Eduardo carregou Elenice, ainda vestida de noiva, para dentro do quarto. À frente ia o gerente do motel Manteguinha, perguntando se tudo estava ao gosto do casal.
– Sim, sim – repetia Eduardo, impaciente. – Enfim a sós! Casar cansa, você não acha, Elenice?
– Não, não acho não. Realizar um sonho não cansa. Passou tudo tão rápido! Você viu como a daminha estava linda?
– Ela estava bonitinha – respondeu vagamente, enquanto se desfazia do fraque alugado. Arrancou a gravata borboleta, abriu a camisa suada, largou as calças no chão, sapatos e meias por cima.
Ela continuava vestida, acompanhando a movimentação de seu agora marido. Elenice não estranhou sua desenvoltura; afinal, Eduardo conhecia bem aquele quarto. Ele deitou-se na cama redonda, amassando colcha, lençol e pétalas.
O quarto 216, naquela noite, era para ser outro. Havia pétalas, champanhe, Roberto Carlos, a primeira noite de casados.
– Você não vai tirar o vestido de noiva? Afinal, estamos em casa.
– Abre o zíper para mim, amor! – retrucou Elenice, sentando-se na cama com outras intenções.
Ela havia seguido à risca o conselho de uma amiga ao planejar tudo para que aquela noite fosse diferente: para dar sorte, usou uma liga azul, uma calcinha velha e um sutiã novo. Exibiria seus seios implantados, e imaginou que, assim paramentada, cada talismã do vestuário seria tirado um por um, despertando no marido aquele desejo só possível de ser confessado sob a sagrada benção do matrimônio.
Eduardo obedeceu ao chamado da agora esposa, abriu o zíper do vestido, mas Elenice já estava com seus sentidos desativados.
– Pronto, amor, vem cá, vem – disse ele, puxando-a para si, sem reparar nos cuidados para surpreendê-lo. O vestido de noiva ficou esparramado no chão, a calcinha, o sutiã e a liga azul apenas um montinho sem graça ao pé da cama, ao lado das calças de Eduardo. Fizeram amor como toda vez, sem novidades.
O que mudou foi a afirmação de que ele era um felizardo por estar casado com ela.
Elenice colou seu olhar no teto de espelhos: o champanhe quente na jacuzzi, junto com as pétalas marrons e murchas, ainda esperavam pelo banho romântico a dois.
Ocorreu-lhe que a intimidade é como fogueira em noite de São João: a fumacinha impregnada no corpo ao dançar em torno do fogo. No dia seguinte restam cinzas frias, tranças presas ao chapéu, sardas pintadas, babados amassados. Pensou na quadrilha, ela e Eduardo casados de brincadeirinha, dançando roda de baião.
Cerrou os olhos e não sonhou.

Este texto foi extraído do livro “21 Quartos de Hotel“, de Bettina Lenci.

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