Os tempos eram de guerra e, com a rendição de Vichy à invasão alemã de Hitler, a cidade havia se dividido entre franceses colaboracionistas que reverenciavam os soldados alemães e franceses que partiram para a clandestinidade a fim de combatê-los.
Vovó morava com seus pais em uma fazenda onde cultivavam uma horta, criavam galinhas e porcos, produziam leite, queijo e manteiga. O cenário bucólico: galpão grande e casa confortável. Um pomar, geleia e conservas enfileiradas na janela da cozinha. Henri e Jean, seus irmãos, haviam se juntado à Resistência, e assim ela teve que trabalhar dobrado.

Foi neste ponto do relato que vovó baixou a voz.
O nome que não devia ser ouvido era Günther, o ajudante de ordens do general Adolf Schneider, que o mandara inspecionar as instalações e serviços da fazenda e verificar se as acomodações eram suficientemente boas para abrigar uma alta patente alemã. Como meu bisavô havia prometido não dirigir a palavra ao invasor, mandou sua filha recebê-lo.
– Quando vi Günther pela primeira vez, ali no portão, eu sabia que meu destino trançara-se ao dele como o laço azul que amarrava meus cabelos. Achei graça nessa descrição. Imaginei seus olhos cor de esmeralda e seu longo cabelo ruivo cacheado preso num laço azul, como numa pintura de Renoir.
– Minha pele arrepiou-se toda – disse, mostrando seu braço macerado parecido com a pele de uma galinha depenada. – Nem sei como descrevê- lo… um príncipe, impecavelmente ereto em seu uniforme. Ele se postou bem à minha frente, as botas brilhantes e o quepe debaixo do braço esquerdo.
Cumprimentou-me, não à moda nazista, mas num forte aperto de mão e, com um clicar de saltos, apresentou-se: Günther von Brauen.
De uma maneira não mais permitida aos velhos, vovó enrubesceu.
– Foi uma atração instantânea? – ousei perguntar. Para minha surpresa, ela respondeu calmamente:
– Sim, um tiro fatal, bem na boca do meu estômago!
Comecei a suspeitar que sua intenção, ao me contar a história, era que eu não a julgasse uma colaboracionista. Queria que eu entendesse que, naquela fração de segundo, ela não era francesa, filha de camponeses, nem Günther um alemão, filho de nobres.
– Minha querida, entre um homem e uma mulher, é importante você se lembrar, não há credo, origem ou cor – disse, encerrando o assunto para aquela tarde de confidências.
Fui para casa pensando se contaria para meu pai o que acabara de ouvir. Decidi pelo não.
O relato continuou no dia seguinte:
– O tempo passava moroso, os dias de verão longos, mas graças a Deus…
– vovó desvirou aliviada seus expressivos olhos para o céu e continuou – os dias de verão longos traziam as noites para acolher meu segredo. Numa noite sem lua dirigi-me a Günther, que fumava sentado na soleira da porta. Foi a primeira vez. Descreveu, sem corar, o calor que perpassou seu corpo ao fixar o olhar na ponta ardente do cigarro de Günther. (Nessa passagem do relato quem enrubesceu fui eu.)
– Perguntei se algo não estava bem, pois o general, outrora polido e discreto, tornava-se a cada dia mais nervoso e mal educado, e Günther me respondeu: “Creio que perdemos a guerra!”
Percebi um leve tremor na voz de vovó, que continuou relutante:
– No dia 19 de agosto de l944, dia anterior à rendição do marechal Petain ao governo do marechal De Gaulle, o Feldmarchal Adolf Schneider e seu ajudante de ordens Günther von Brauen começaram freneticamente a
queimar documentos e a empacotar uns poucos pertences, e foi quando ouvi um tiro! O general havia se suicidado.
Vovó levantou-se e me abraçou, despedindo-me abruptamente de suas memórias. Do seu olhar, o brilho havia sumido. Quantas vezes ela não teria ouvido o estampido vindo do passado?
Aguardei intrigada o próximo encontro.
Ela chegou com um lenço azul amarrado no pescoço, o que fez a minha ansiedade tornar-se ainda mais aguda. Refeita, perguntou-me, como se não soubesse:
– Onde foi que eu parei?
– No suicídio do general!
Sorriu de forma enigmática e emendou:
– Deixe-me lembrar… Ah! Sei, sei… Le chat que rit!
Calei-me assustada. O que será que se passava na cabeça grisalha, cacheada, de vovó? Teria ela perdido a memória?
– Meus irmãos embrenhados na floresta, meus pais comemorando a libertação de Vichy, o general morto, os documentos proibidos em cinzas, foi a oportunidade única que Günther e eu tivemos para perceber que precisávamos estender o tempo entre a derrota alemã e a despedida.
Nessa altura da história, vovó Viviane tirou seu lenço azul do pescoço (seria o mesmo de outrora?), secou uma lâmina de suor do rosto e fez uma pausa. Procurei encaixar na história o gato que ria.
Com um gesto engraçado, fechou os braços um sobre o outro e apertou-os, tentando me dizer o que mais uma vez não sabia como contar. Não precisei de tempo para entender: ela e Günther se amaram naquele dia. Adivinhando meus pensamentos, ela disse:
– Querida, o Gato que Ri é o nome da pousada onde ficamos. No quarto número 2!
Criei a imagem de vovó com seu laço azul desfeito, os corpos virgens, nus, abraçados, muito quietos, naquela tarde de dois vencedores. Confessou-me, com uma calma antiga e sem resquício de culpa, que no quarto número 2 havia sido gerada uma criança.
Hoje, sentada na mesma cadeira de vovó Viviane, penso em como ela foi destemida, não só ao entregar sua virgindade ao inimigo, mas em ter persistido na resultante da entrega.
Lembro ainda de vovó afirmando que Günther não fora um soldado alemão no momento da fecundação. O tempo havia se encarregado de apagar qualquer vestígio de origem que as histórias de guerra registram. Ela nunca contou o episódio ao meu avô. Não creio que por medo da rejeição, e sim para proteger pai e filho dos ambivalentes sentimentos que se instalam entre inimigos de guerra: a confluência de vida e morte, amor e ódio. Ainda hoje me pergunto se meu pai sabe que sou neta de um soldado alemão.

Este texto foi extraído do livro “21 Quartos de Hotel“, de Bettina Lenci.

Leia a obra completa clicando aqui.

Deixe uma resposta

Seu endereço de email não sera publicado . Os campos marcados com * são obrigatórios.

Se quiser, voc6e pose utilizar estes tags e atributos HTML: <a href="" title=""> <abbr title=""> <acronym title=""> <b> <blockquote cite=""> <cite> <code> <del datetime=""> <em> <i> <q cite=""> <s> <strike> <strong>

limpar formulárioEnviar

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.