As luzes estavam acesas para receber o novo hóspede. O contínuo, de uniforme e barrete verde oliva, colocou as malas sobre o cavalete, ligou a TV, deixou a chave-cartão sobre ela e acendeu as demais luzes.

Irritado, Lucio deu uma gorjeta maior do que a condizente para o contínuo, que saiu e deixou o quarto iluminado como uma espaçonave. Dirigiu-se ao frigobar, desligou a TV e tomou o seu primeiro whisky. Precisava relaxar.

Copo na mão, iniciou o ritual das luzes na busca de aconchego.

“Por que quartos de hotéis caros são tão profusamente iluminados?” Olhou em volta e contou: a luz do hall acendia cada vez que entrava ou saía do quarto. Uma luminária sobre a escrivaninha, outras duas nas laterais da cama. Junto da poltrona, o abajur.

Mais quatro arandelas no banheiro, outra dentro do armário.

Lucio já sabia que, para apagar o abajur da escrivaninha, precisava se curvar e torcer a borboleta por baixo da cúpula. Para apagar a lâmpada ao lado da poltrona, encontrar o interruptor no toque do pé. Dirigiu-se à cama.

Há tempos havia deduzido que o lado que tinha mais interruptores era onde os homens dormiam.

Escolheu o direito. Tentando descobrir qual seria o botão da mesa de cabeceira, ligou a TV, apagou a lâmpada da escrivaninha e a do hall. Outro toque e foi surpreendido com música. Apertou mais uma vez o mesmo interruptor, mas acabou desligando o rádio e acendendo a TV. “Crianças, quando têm medo, não pedem por luz?”

Respirou fundo, arriscou uma resposta.

“Tantas luzes num quarto de hotel deve ter relação com o medo que o hóspede sente, sozinho, em território estranho”.

Deitou-se para um rápido cochilo, deixando apenas a TV e a lâmpada da escrivaninha ligadas.

Acordou assustado, acendeu os quinze pontos de luz e a música. Ao sair, ainda irritado, bateu a porta do quarto 123 atrás de si, deixando-o tão iluminado quanto uma espaçonave. A chave-cartão, único ponto do quarto que apaga todas as luzes, ficou em cima da TV ligada.

 

Este texto foi extraído do livro “21 Quartos de Hotel“, de Bettina Lenci.

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