Em cima da mesinha, seus livros. Sobre a cadeira, a roupa usada do dia; espalhado sobre o banco, o resto. Um abajur e o vaso com uma flor oferecida. Sombras criadas no pátio, amareladamente iluminado, adentravam por duas grandes janelas sem venezianas. Esvaído de tempo, o pano da cortina marcado por cada hóspede que consigo levou um pouco de sua cor e vida.
Fora, o vento sibilava. Dentro, apesar do aquecedor ligado, nas veias de Cornélia o sangue corria frio. Ao seu lado, o contorno de um corpo. Com a face colada ao travesseiro, lágrimas grossas escorrendo, Cornélia, encolhida, sentia o lençol como uma densa bruma no topo da serra. Tentava cerrar os olhos para ver se no escuro encontraria uma resposta para a solidão condensada naquele quarto 16. Por onde fugir se o homem ao seu lado tinha peso e odor? Somente ela e o tique-taque do seu relógio não dormiam!
Enganara-se. Mais uma vez.
Cornélia desejou que aquela existência encoberta desaparecesse como o vapor da locomotiva que a levaria para casa. Alojou a desilusão por debaixo do lençol, levantou-se e lembrou ter esquecido seus chinelos. Ao pisar no tapete verde, sentiu todas as solas descalças que por ali já haviam passado. Vestiu-se e saiu na madrugada.
A luz do pátio, antes amarela e densa, agora lembrava um resfriado: transparente e cinza. Abrigada pelo casacão de lã, o frio não a poupou do congelado pensamento: mais uma vez deitara-se com um desconhecido! Esqueceu o número do quarto.

Este texto foi extraído do livro “21 Quartos de Hotel“, de Bettina Lenci.

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