Um cachorro labrador saciado dormia aos pés do dono. Numa das paredes do terraço que dava para a piscina, uma coleção inglesa de gravuras de barcos e navios.

Um senhor de calça caqui, camisa de linho branco e sapatos marrons, incrivelmente lustrosos, parecia olhar para um ponto fixo, talvez o infinito. Na verdade observava um passarinho tomando o seu banho matinal na piscina de azulejos verdes que o  lembravam do  Mar do Caribe. Comoveu-se.

Um sofá e, na frente, uma mesa de vidro cujo tampo era sustentado por quatro pés de elefantes de cascos dourados. Em cima dela, armas antigas, um binóculo inglês e muitos livros de caça do mundo todo. Na parede oposta, seus troféus: uma cabeça de javali, um leão, veados e um elefante com tromba e chifres de marfim, todos empalhados e cujos olhos de vidro, só rivalizavam em brilho com os sapatos do caçador. Na prateleira, fotos dos animais hoje dependurados, porém à época, ao lado do atirador, um pé sobre a presa morta e uma mão segurando o rifle de mira, daqueles americanos de guerra. As molduras destas fotos eram de pele de onça, de zebra ou osso.

Num dos cantos deste terraço, um bar, no outro uma estante de coleções de livros cujas lombadas em couro vermelho e letras douradas, aparentemente, nunca foram folheadas. Espalhadas, seis cadeiras de vime, confortáveis, cujas almofadas remetiam a paisagens inglesas de caça, uns banquinhos para colocar os pés combinando com as almofadas. O senhor respirava com satisfação e lembranças recompensadoras. Ele havia começado sua vida herdando uma empresa de ônibus, no interior de São Paulo. Hoje era dono também de empresas de navegação e aéreas. A dependência que mais gostava dentro da imensa casa, era esta. Realmente a decoradora havia acertado o seu gosto ao reconstruir o terraço da casa de um caçador americano.  Era a sua caixa de lembranças prazerosas, um patrimônio particular: os bichos empalhados que ele mesmo caçara.

O senhor deseja que sirva alguma coisa aqui no terraço? perguntou um homem de terno e gravata.

“Obrigada, pode ser um cafezinho e um copo d’agua. Não esqueça do meu remédio”, respondeu o Sr. Antenor.  “Diga-me, meus filhos já levantaram”?

– Não senhor

– e minha esposa?

-Ela já pediu seu café no quarto.

Enternecido, vagueou os olhos para o porta-retrato onde D. Aurora sorria para o fotógrafo, vestida de longo rosa, ele ao lado, em um perfeito fraque inglês (“Como era quente, lembrou”..!) por ocasião dos festejos de seus 50 anos de casamento. Sua esposa, nascera em uma ilustre família de origem pernambucana. Falava francês e inglês, havia terminado o curso normal que a tornaria professora, mas casou-se antes. Seus pais não tinham o dinheiro, mas tinham a linhagem que faltava ao Sr. Antenor, oriundo de uma pequena família remediada do interior paulista.  Aceita a união “de nível social desigual” como se dizia à pequena voz, o casamento desenvolveu-se em uma vida estável, na qual D. Aurora administrava a casa e os filhos tão bem quanto senhor Antenor os seus negócios.

– “Obrigado, Arlindo”, disse vagamente ao mordomo, o olhar cego voltado novamente para o translúcido verde da piscina. O passarinho já não estava mais ali. Recostou a cabeça e pela enésima vez, reviu o seu discurso, há tempos composto, mas temeroso, sempre postergado. Seu receio tinha fundamento!

Concordou com seu discurso mental.

Alheio aos movimentos do jardim de inverno, não percebeu que sua esposa havia descido e, achando que ele dormitava, cobriu suas pernas com o cobertor que havia escorregado para o chão. Não ousou movimentar a cadeira de rodas (consequência de um grave acidente ocorrido na África) para tirá-lo da corrente de ar que adentrava junto com o sol morno da manhã.

Sorriu em silêncio, agradecido, ao sentir a presença da fiel companheira e mãe de seus seis filhos.

– “Por favor, chame-os, sinto que não devo mais postergar tudo o que está apertando aqui no peito”. Não sei por que, mas hoje estou calmo e preparado. Você fica junto, eu te peço e diga para os empregados não interromperem por nada esta reunião. “Apenas peça para trazerem a água e deixarem em cima do bar.”

Aos poucos os filhos foram chegando, nesta ordem:

Joaquim, o caçula, Bernardo, Tomás, Antônia, Antenor (ou |Junior) o mais velho e Rubens . Bernardo ainda de pijamas foi mandado de volta para se apresentar vestido. Joaquim, sem tomar café, foi enviado para a sala do pequeno almoço. Antenor, de bermudas, sofreu a mesma repreensão dos demais, mas não tinha como trocá-la porque não mais morava na casa.

Rubens, conhecendo o pai melhor que seus irmãos, já chegou com calça, camisa e café tomado. Antonia, de maiô e tanga combinando, na mão, seu filho. Para ela, Senhor Antenor pediu que deixasse o filho com a babá mas que ela precisava trocar de roupa. Sorriu com carinho, admirado com sua beleza, (tão parecida com a mãe!)  Para os demais pediu que seus netos não entrassem para interromper, por nada, enquanto durasse a reunião e que por favor, todos deixassem seus celulares na sala ao lado.

Quase em fila indiana cada um foi tomando uma cadeira, o silêncio absoluto até que Bernardo falou com a voz ainda rouca de quem acabara de acordar:

“Pô, porque sempre eu é que tenho que sentar no banquinho?”

Rubens fez menção de trocar, mas o pai, com um aceno disse que não. Antonia ensaiou esticar as pernas no banquinho vazio, mas foi imediatamente reprimida.

O silêncio que se seguiu insuflou a todos uma aflita expectativa. Ninguém sabia por que haviam sido chamados a se reunir com tanta solenidade. Alguns temiam o pai em segredo, outros abertamente. Todos foram ensinados, pela mãe, a admirar o pai e lhe dedicar respeito. Estes, interpretando sinal de respeito como sendo de proximidade e confundindo admiração com medo, acabaram nunca se achegando ao provedor de todo este bem – estar, – (fato sempre lembrado pela mãe), – seus pensamentos voltados para os negócios – pobre homem! – (suspirava D. Aurora).  Sr. Antenor apenas presente nos aniversários, casamentos da família, na ceia de natal e no almoço de páscoa na fazenda.  Os filhos apreensivos os olhos voltados para o pai, este iniciou o discurso ensaiado:

Tudo que tenho fiz por vocês! Chegou a minha vez de perguntar o que vocês podem fazer por mim? Não lembrou que este era o final do seu discurso e continuou:

“Filhos, eu estou envelhecendo e já não consigo tocar as empresas como antigamente. Cometi um engano ao não fazer a transição para profissionais. Hoje, ainda, o negócio que construí depende das minhas decisões.

“Quero saber enquanto ainda estou por aqui o que vocês me sugerem fazer daqui para a frente? Nunca exigi nada de vocês. Cada um escolheu o caminho que quis”… improvisou.

Junior interrompeu: – “pai, eu não tive escolha, tive que ir trabalhar com você quando eu queria ser arquiteto”. O pai ignorou a intervenção.

– “cada um escolheu o que quis… continuou,” quando eu comecei a montar as empresas fui imaginando espaços para serem preenchidos por vocês. Só fiquei esperando para saber quem teria afinidade com a aviação, quem se interessaria por transporte de passageiros, quem gostaria de logística e transporte, quem gostava de navios e mar. ….   montei para a Antonia…

“Eu gosto do mar e barcos, mas de navios não”, murmurou Tomás, um sorriso de gozador nos lábios…

“…- para Antonia…  deixei o lugar de diretora de Recursos Humanos do Grupo, mas ela não quis estudar, casou e prefere vender roupa em loja de madame.”

– “Não é verdade. Eu tive que ir trabalhar depois que voce cortou a minha mesada porque eu casei com o José Luiz”…

– “lógico, eu não ia ficar sustentando seu marido, operador da bolsa, com o meu dinheiro!… Não, não foi para isso que padeci construindo o meu império. Eu não sou uma instituição de caridade.”

“Pai,” interrompe a mãe,” procura dizer o que você queria”.

“Eu quero saber o que vocês pensam fazer com as empresas depois que eu morrer?”

– “Nossa pai, vira essa boca prá lá, eu ainda nem terminei a faculdade e voce já vem com essa ameaça. Esqueceu que eu sou o menor de todos? Quem vai pagar pelos meus estudos? Eu quero ir fazer universidade nos EUA. Tenho direito ao meu carro, a minha mesada, igual que você deu para os meus irmãos.”

Pela primeira vez, é Rubens quem se manifesta. Levanta-se e começa a andar pra lá e prá cá até finalmente falar:

– “Joaquim, fique tranqüilo, se Deus me livre acontecer alguma coisa com papai eu vou cuidar de voce, papai já deixou isso acertado comigo”!

– “Como assim? Acertado comigo? Quer dizer que você e papai continuam confabulando atrás das minhas costas? Escuta papai, quem é afinal que manda aqui depois de você?   Ele ou eu?” pergunta, ultrajado, Junior. “Eu sou o vice presidente da Holding, ele é apenas o presidente da Aerofly”.

– “Você,” retrucou Rubens mantendo a sua voz controlada “mais uma vez, não entendeu o que eu disse. Tanto você quanto eu sabemos quais medidas ele já tomou para deixar todos nós muito bem.”

– É, saber eu sei, mas vejo que vocês ficam trancados naquela sala trocando segredos. Você sempre foi o preferido só porque cursou administração de empresas naquela faculdade importante …. Como é que chama mesmo?

– “Harvard”!

– “É, fez o master só para agradar o papai. Eu sai da GV e ele achou que não fiz nada além da minha obrigação.”

“Junior…”, falou Rubens, o tom de voz com um leve tremor de impaciência – “A única coisa que papai me pediu é que eu cuidasse do Joaquim no sentido que eu o preparasse para depois assumir uma das empresas. Foi só isso”.

-Lógico, você sempre foi o melhor da classe… aliás, meus pêsames! eu é que não queria cuidar deste pentelho mimado”!

“Chega meninos, deixem seu pai falar,” interfere a mãe dos dois, batendo uma palma contra a outra, energicamente.

– “onde foi que eu parei? perdi o fio da meada. Estou ficando muito velho e doente para ficar assistindo a esta competição idiota entre vocês só para saber de quem gosto mais.”

– “Voce disse que ia morrer antes de dar tempo de deixar tudo em ordem para a gente,” ouviu-se Tomás dizer. Bernardo, ao seu lado apesar de três anos mais velho, –  arruaceiro e companheiro de balada de Tomás, confirmou: “o Sr. disse que estava preocupado com a morte.”

“Chega gente, de falar em morte, estou com frio e fome,” lamentou-se Antonia, traduzindo o desconforto que todos ali, na verdade, todos estavam desconfortáveis, mas por razões diversas.

O silêncio voltou, esperando o pai deixar de, distraidamente, acariciar, com sua bengala, o fiel labrador preto aos seus pés. Todos tinham pena do pai que há muitos anos não podia mais andar.

“Filhos,” ouviu-se, depois de um suspiro e o olhar fixo na piscina, lembrando-se finalmente do que queria de fato comunicar. Num fôlego só verbalizou:

– ”Eu não profissionalizei a empresa e não segui o conselho de meus advogados para fazer um trabalho de gestão sucessória.  Achava uma bobagem, já que eu tinha 6 filhos sadios que herdariam a empresa e entre irmãos dariam continuidade a ela. Errei.  Hoje, aqui, eu só queria ter a confirmação que tomei a atitude certa ao aceitar a proposta de venda do meu negócio para um grupo americano e criar uma Fundação que vai receber o meu nome e o da vossa mãe. Esta instituição cuidará de pessoas acidentadas no trânsito, na guerra ou na caça aos leões, enfim paraplégicas como eu. Acertei com os americanos para que cada um de vocês receba um punhado de ações desta nova empresa que lhes dará direito a dividendos anuais, enquanto a empresa existir. Vocês serão seis acionistas minoritários. Quanto à vossa mãe, não se preocupem. Ela está cuidada até o fim de sua vida. Já conversei com Rubens a respeito. Ele cuidará do dinheiro dela.”

Junior procurou um cigarro. Há três meses havia parado de fumar. Pensou um segundo, tocou o interfone, pediu ao mordomo que trouxesse um dos seus, podiam ser os baratos mesmo e um wisky com gelo.  Agiu, como se seu pai já fosse letra morta. (Sr. Antenor não gostava que fumassem perto dele).

– “Você está me dizendo que eu não serei seu sucessor na presidência da holding? Que negócio é esse? Agora vou ter que obedecer a um bando de estrangeiros ignorantes?  Foi ele – apontando acusatoriamente para Rubens – quem pôs esta loucura na sua cabeça!  Tenho certeza que foi ele quem encontrou o grupo e trouxe para o Brasil. E tudo, como sempre, em segredo! Você tá gagá mesmo!”

Nem Rubens nem pai, nem mãe, nem irmãos retrucaram, assustados com a violência da última frase. Foi Joaquim quem primeiro falou:

“- Sabem de uma coisa, eu estou achando o máximo. Eu não disse que queria estudar nos EUA? Tá aí. Agora já tenho uma razão. Vou cuidar das minhas ações em inglês.“

– “Quer comprar as minhas ações, já, agora, aqui? estou vendendo”, disse Bernardo.” Eu não quero mais saber de nada. Vou cuidar da minha vida e cair fora deste inferno que é esta família. Tomás lançou um olhar assustado para Bernardo, – “Pai, porque você fez isso com a gente”, disse, num tom entre piedade por si e amor pelo pai. O pai olhou surpreso para Tomás, os olhos, que até a poucos minutos atrás pareciam estar tomados de catarata, brilharam. Olhou tristemente para Tomás, seu preferido e respondeu:

“Eu não sabia o que fazer de melhor”!

“Por que pai?” continuou a indagar Tomás.

“Porque eu vou morrer e sei que vocês iam acabar com tudo brigando por conta do dinheiro.

Antonia chorava fazendo com que a sua túnica transparente grudasse no colo.  Tomás sentou-se ao lado da cadeira de rodas do pai e por sua vez, acariciava Tom, o labrador preto. Bernardo já havia ido embora sem ninguém se dar conta. Joaquim juntou-se à Rubens em busca de proteção e entendimento sobre o que estava acontecendo e este, responsavelmente, colocou o seu braço por sobre os ombros do irmão caçula. Junior tomava a sua segunda dose de whisky e fumava o último cigarro do mordomo enquanto tentava juntar seus pensamentos de como faria no futuro sem as entradas copiosas do caixa da empresa.

A mãe de todos agradecia a Nossa Senhora das Graças por ter atendido ao seu pedido:  tudo voltaria ao normal e ela saberia, agora mais do que nunca, como manter a paz recém criada pelo seu marido ao decidir comunicar a venda da empresa. Sabia que a animosidade entre Rubens e Junior continuaria para sempre, com ou sem empresa.  (Eram tão diferentes um do outro desde criança. Nunca se deram.!) ; que Bernardo voltaria para casa arrependido e que continuaria sem rumo;  que Antonia  manteria seu casamento com os dividendos que iria receber, que Tomás faria alguma coisa  ligada ao mar, ( tão parecido com o pai!) e que Joaquim, este sim, seguiria os passos do marido tornando-se um homem de negócios.

Batendo as palmas das mãos uma contra a outra, com autoridade, mais uma vez, sempre resolvia os atritos que emergiam oferecendo uma lauta mesa para os seus.

“- Meninos preparei uma moqueca para o almoço, está deliciosa. Comprei aqueles camarões bem grandes que vocês tanto gostam. Quem fica para o almoço?”

Exceto Bernardo, ficaram todos e em silêncio mortuário, dirigiram-se à mesa. Senhor Antenor numa das cabeceiras da mesa, D. Aurora na outra. Rubens ao lado direito do pai, Antônia ao lado direito da mãe. Como todo dia, durante toda a vida em família, a prata brilhava, o branco da toalha engomada cheirava à lavanda, os copos reluziam, o centro de flores colorido pedia por alegria, travessas e bandejas de comida fumegavam no aparador. Quem ali chegasse seria recebido numa atmosfera de invejável harmonia e paz. Falou-se sobre as próximas férias, viagens e em qual restaurante se comia o melhor pato de Pequim.

O que dona Aurora não sabia era que, com a morte de seu marido, seus filhos passariam a conviver, para o resto das suas vidas, com a sensação de traição e desamor  pelo pai  e que tanto ela como eles,  perguntar-se-iam,  porque este patriarca, homem humilde que se tornou quase barão,  lhes havia dado a certeza absoluta ,  por tão longo tempo,  de que não existia um fim para a vida de cada um.

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