Um caderno quase novo chamou minha atenção dentro da lata de lixo do meu vizinho. Era destes usados nas escolas e que ao final do ano só servem para escrever os recados da casa. Continha várias páginas escritas em letra miúda, fora das linhas, quase ilegível. Li e fui tomada pela singeleza, bizarrice e comovente busca de uma mãe escrevendo para Deus. Pedia por paz e entendimento sobre o que havia acontecido com seu único filho José.Consegui decifrar um conjunto de inteligência e ingenuidade de uma semi alfabeta, capaz de amar a Deus e a seu filho, com igual ardor.

Guardei o mal escrito manuscrito na gaveta de esquecidos, mas de relíquias sempre lembradas e hoje fiquei com vontade de lê-lo.

 

Pai,

“Eu é que cuidava do Toninho, filho da Rosa, a comadre, lembra, quando ela tinha que ir ao posto buscar os remédios? Eu nunca entendi qual era a doença dele. Uma hora era o fígado, na outra hora era pneumonia. Ele foi ficando um palito de magro e eu não sabia do porque o meu filho ficava tão interessado em saber como ia o Toninho. Ele me perguntava coisas que eu não sabia responder depois ficava calado, dava meia volta e ia dormir. Eu pensei que ele queria saber porque era muito amigo do Toninho. Ai um dia, o Toninho morreu. Morreu e foi melhor assim. Quando foram enterrar ele, eu ouvi uma história de que ele teria morrido de AIDS, uma doença que homem pega se transa com outro homem. Eu fiz o sinal da cruz e pedi a você que o perdoasse, mas fiquei de olho em cima do meu José.

Um dia perguntei para o José porque ele voltava de manhã cedinho para casa para dormir o dia todo e sair de noite. Ele me disse que trabalhava à noite numa boate de grã-finos e que pagavam muito bem. Fui perguntar para a comadre como é que ela percebeu que o Toninho tava tão doente, ela deu de ombros, chorou mas não me contou nada.

Fiquei com a pulga atrás da orelha e um dia saí atrás do José para ver onde é que era esta tal de boate. Fiquei esperando muitas horas até ele sair de um lugar que tinha um cartaz que piscava e dizia “Paraíso dos Fiscais, boate GLS” e depois desapareceu por um portão de ferro de um prédio que ficava ali perto. Fui atrás correndo e também entrei. Só deu tempo para eu ver que o elevador parou no sétimo andar. Voltei para casa e fui fazer o café para o José, como eu fazia todas as manhãs quando ele chegava em casa, achei melhor não perguntar nada.

Um dia, um carro parou na frente da porta da nossa casa e desceu um homem e o José. O José pediu para eu sentar e ouvir o que o homem ia me dizer.

O homem sentou bem na minha frente e me perguntou se eu conhecia a história do Adão, da Eva e da Cobra. Ai eu respondi como eu não ia conhecer se eu era católica? Ele deve ter achado que eu era uma ignorante porque me fez umas perguntas que eu sabia todas. Imagina!? Me perguntou se eu sabia que a Eva comeu a maça que a cobra ofereceu pra ela e que ela deu uma mordida e passou para o Adão dar a outra. Perguntou se eu sabia que Deus expulsou Adão e Eva do Paraíso. É possível? Mas depois disse uma coisa que eu não entendi nem um pouco: que a cobra era uma mulher e que essa cobra mulher tinha entrado no corpo do Adão porque ele comeu a maçã que a cobra mulher deu para ele comer e que o José tinha uma cobra mulher dentro dele, igual ao Adão. Eu quase morri de susto e perguntei pro José se ele sabia disso e como foi que ela entrou dentro dele e vivia lá dentro.

Ele disse que não era uma cobra, disse que era uma serpente. O José virou pra mim e disse, bem baixinho, que era a serpente dentro dele que gostava de homem e não de mulher. Aí eu perguntei se o homem também tinha a serpente dentro dele e o José disse que não, disse que eles se gostavam igual um homem gosta de uma mulher. Virei pro José e perguntei direto se ele era bicha, mas foi o homem que respondeu que não, que eles se gostavam muito e que queriam morar junto, que nem marido e esposa e que estavam lá para pedir a minha benção. Eu fiquei mesmo é preocupada com você Deus: pai não quer saber que tem um filho que gosta de outro homem. Não é verdade? Aí eu fiquei pensando bem e lembrei de uma história que eu acho que vi na televisão. Disseram que Madalena era uma mulher que dava para homens e que tinha namorado Jesus – eu não acredito – e que Maria, que era mãe perdoou Jesus. Aí eu pensei, se Nossa Senhora perdoou o seu filho porque eu não ia perdoar o meu.? Aí eu pensei, se Deus é por nós, quem é que pode ser contra os homens que tem a cobra dentro deles? Mas assim mesmo meu coração ficou apertado e eu perguntei pro homem se o nosso filho também ia morrer de Aids que nem o filho da Rosa. Ai o meu José se levantou e me deu um abraço dizendo que a história do filho da tia era diferente da dele porque ele vivia na rua se oferecendo e que ele nunca tinha feito isso. Eu acredito no José e gostei do jeito do homem. Ele vai cuidar do meu José. Aí eu levantei, apertei bem o nosso filho contra o meu coração e depois dei um abraço no meu genro e disse que Deus ia abençoar eles viverem como marido e mulher. Você também vai abençoar os dois, não vai não?

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