Irene tinha um único desejo naquele momento: terminar logo com a dissertação que a professora mandou fazer como lição de casa. Ela tinha que falar sobre um desejo seu. Se não o fizesse direito, sua mãe ia ficar muito chateada e Irene não queria que ela ficasse triste com ela. Já tinha tido vontade de não ir mais para a escola, mas pensou que faltavam apenas um ano e meio e sua mãe não se cansava de repetir que “você precisa se formar, não ser que nem eu, que não sei ler nem escrever, você vai conseguir, se Deus quiser!” Em um ano e meio terminaria o colegial – de tão fraco, mais parecia a oitava série – e nunca mais veria nem a D. Mariazinha, nem as aulas de português, nem a lição de casa, nem ninguém. Ia fugir de casa, mesmo sabendo que sua mãe ia sofrer muito.Repetiu duas vezes, a terceira e a quinta série. Ia ficar com saudades da mãe, da casa de taipa, do chão de terra, do gato em cima do fogão a lenha, do cachorro latindo de manhã cedinho para as vacas leiteiras que seu padrasto ordenhava e o som, diário, que a acordava, do cilindro de metal com leite colocado pra cima da charrete de madeira.

Foi difícil para o padrasto comprar os 4 cilindros de metal, mas se não os tivesse, a indústria de laticínios não ficaria com o seu leite. Dizia que os antigos, de ferro, estavam contaminados. A fábrica ficava a duas horas de charrete do sítio. Todo dia ele pegava um pedaço de estrada de terra esburacada e outro de asfalto. O de asfalto era mais comprido. A fábrica de laticínio há pouco havia se instalado no município, ajudando todo mundo a ganhar um salário. Ela ficava perto da indústria de açúcar e álcool que comprava toda a cana que tinha por perto. E não era pouco. Mas para o padrasto da Irene, para sua grande mágoa, não servia para nada. Ele não tinha terra para plantar cana e também não queria ser bóia fria. Já tinha sido por tempo demais além do que, havia perdido o movimento de dois dedos quando ceifou o tendão da mão querendo cortar a última tonelada de cana que faltava para receber a paga do dia.

D. Augusta, mãe de Irene, ganhara os trocados suficientes para pagar a prestação dos cilindros de aço inox necessários para colocar o leite todo dia e levar para a cidade. Ela costurava na máquina de pedal que herdara da mãe, noite e dia, ao som da televisão ligada direto no programa “chapisco” porque praticamente não tinha imagem, só o som e um canal. D. Augusta costurava panos de prato, cobertura de liquidificador, toalha de plástico: fazia flores, colchas e tapetes com os restos de tecido, crochê para vestir almofadas e era capaz até de moldar o sofá com uma capa de babados que cobria os sofás rasgados da gente pobre da região. Ela também aprendeu a fazer de garrafa plástica da coca cola uma boneca cujo vestido eram tiras de plástico de saco de lixo. O cabelo de lã, ora loura, ora morena, a pintura feita com esmalte, renda costurada no pescoço e na barra da saia. Para ela ficar em pé, uma rodela de isopor fincada com um arame no gargalo escondido da garrafa que ia até a cabeça da boneca, também de isopor. Este era um artigo que vendia muito bem no bazar de Natal da cidade.

Além de costurar, noite e dia, D. Augusta cuidava da horta, dos cinco porcos e das 20 galinhas. De mau grado seus cinco filhos a ajudavam. Eles também tinham que andar todo o pedaço de terra para chegar no asfalto e esperar a “perua” que muitas vezes nem passava para levá-los para a escola. Uma hora era a gasolina que acabara no meio do caminho, outra quebrara a ponta de eixo, outra a chuva e assim ia. Não tinha nem com quem reclamar. O prefeito, este morava na capital e só vinha visitar o município de quando em vez. E assim voltavam, cansados, todos os dias para casa, sob chuva ou sol, o maior deles carregando a mochila do menor.

Irene era a terceira filha de D. Augusta. Os outros dois irmãos eram filhos do padrasto. Seu pai largou mãe e filhos no sítio herdado de D. Augusta para ficar com outra lá da cidade. Já teve mais quatro filhos, mas Irene não os conhecia. Sua mãe a proibiu de ir a casa dele, da mulher e dos filhos. Era um péssimo exemplo! D. Augusta dizia que “ele não prestava, tomava muita cachaça, não trabalhava e só pensava em mulher”. Também dizia que foi um homem bonito, assim como os filhos, mas que “aquilo não é filho de Deus, é do Diabo”, sofri muito, filha”!

A irmã mais velha de Irene já tinha se casado e esperava filho. Vivia nos fundos da casa. A segunda já namorava para casar e Irene, que acabara de completar 17 anos, espera completar 18 para ir embora da cidade, conhecer o pai, quem sabe trabalhar em casa de família enquanto faria um curso de computação e depois prestar concurso no Banco do Brasil para ganhar aposentadoria certa.

Sentada pensando o que escrever na dissertação, lembrou que seu desejo era ser livre para fazer o que bem entendesse. Escreveria sobre a liberdade. Pensou na mãe e lembrou do seu desejo. Do desejo que a mãe tinha de vê-la escrevendo. Ela não sabia dizer porque sua mãe tanto desejava que falasse escrevendo.

D. Augusta trabalhou muito para que seus filhos saíssem de casa para ser alguma coisa a mais do que ela na vida. Na costura o dia inteiro, ouvia a televisão e sabia muito bem o que era possível fazer e o que não era. Para a filha mais velha desejou que fosse artista de novela, era tão linda. Que desperdício! Os olhos verdes do pai, a sua cor de pele que todos elogiavam, o cabelo liso da avó índia. Iria para a cidade fazer um teste na TV. Tinha porte. Para a segunda, desejou que ela fosse vereadora. Ela sabia falar bonito, dizia as coisas importantes de um jeito fácil de entender. Certamente ganharia uma vaga na Assembléia Legislativa da cidade. D. Augusta sabia que ela sempre mentiu quando perguntada se tinha feito isso ou aquilo, mas ouvinte atenta de propaganda eleitoral, sabia quão imprescindível era este dom para esta profissão.

Para Irene desejou com mais desejo ainda, rezava sempre entre um ponto e outro, que ela iria escrever, não sabia como nem aonde. Mas assim tinha que ser, mesmo se o seu desejo em relação às duas irmãs de Irene não deram lá muito certo. Mesmo se seu desejo também não se realizasse com os dois filhos menores, saberia se conformar. Mas com Irene era diferente. Ela veio para este mundo com um sinal especial, estava escrito na testa!

Um dia D. Augusta encontrou um bilhete escrito por Irene. Mesmo sem saber ler, sabia que não devia lê-lo, era falta de educação, mas não resistiu.

No dia das compras, foi até a cidade com o marido, aproveitou a passada mole da charrete de leite, o aconchego da coxa com coxa, o silêncio dos pássaros, as nuvens em formação, para aquietar a sua intuição. Desceu na casa de sua comadre, D. Rosa, professora aposentada, e pediu para ela ler o papelzinho em voz alta.

D. Rosa atendeu o seu desejo e recitou a letra bonita e caprichada:

Onde encontro um pai?
O meu morreu,
Também eu.

Segundo D. Rosa, sua filha Irene havia escrito um poema. D. Augusta ficou muito emocionada e pensou: que beleza de bonito, o eu e eu, o morreu e eu.

Perguntou para a comadre o que a filha queria dizer com aquele bilhete. D. Rosa apesar de dedicada professora de português não soube desvendar nem a análise analítica nem a explicativa: seu conhecimento chegava ao substantivo, adjetivo e verbo.

Mesmo sem entender, foi nesse dia que D. Augusta decidiu que escrever era a melhor resposta para o problema de Irene que tanto a entristecia só imaginando o quanto a sua filha sofria e para confirmar perguntou para D. Rosa se sua decisão estava certa.

D. Rosa, mais idosa do que D. Augusta, mais letrada, mais viajada, aposentada, casa própria, bem de vida, com a filha em São Paulo médica e o filho advogado em Campinas, coçou o pêlo branco que nascia de uma pinta no canto da boca, acendeu um cigarro de palha – única lembrança de sua origem tão simples quanto de D. Augusta – e profetizou:

“Querida comadre, seu desejo de fazer Irene falar escrevendo está mais do que certo. Sendo gaga do jeito que é, coitada, só ficando bem quieta para achar marido.”!

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