Quem anda a pé em qualquer calçada, atento às pessoas que passam ao lado ou vindos em sentido contrário ou do outro lado da rua, armazena informações para montar a história do dia.

É o que faço todo dia.

Hoje, ao dirigir-me ao supermercado de sempre, encontrei-me atrás de um corpo pesado de mulher. Suas nádegas eram volumosas enquanto sua parte superior pareceu-me frágil demais para carregar todo aquele peso.

Eu já a tinha visto outras vezes, porém não me chamou atenção, provavelmente estava ocupada em decifrar outros hábitos, situações e costumes de desconhecidos.

Talvez estivesse concentrada no sapato de outra pessoa. Estaria lhe apertando os dedos e criando um joanete? (Hoje mais difícil por conta da moda do tênis ergométrico usado como indumentária social).

Talvez me perguntando se esta ou aquela pessoa estava vestida de acordo com sua idade, se cabia ou não usar um legging de ginástica ou um short com salto alto. Aliás, o que mais tem me intrigado ultimamente, além da coragem de exibi-los, é a altura dos saltos sustentando uma plataforma que Carmem Miranda, há 100 anos, exportou para os Estados Unidos. Ato heroico como o dos guerreiros da idade média ao se locomoverem com armaduras.

Minha profissão, como pode parecer nesta crônica de rua, não é de estilista, antropóloga ou psicóloga. Atenho-me apenas a observar as transformações ocorridas no Tempo, este sim, meu foco de interesse.

As transformações de hábitos e costumes fizeram com que eu perdesse as linhas demarcadas pelo passado e tingisse o futuro com tintas pessimistas, procurando, no presente, ser tolerante com o que não entendo.

Hoje minha concentração estava dirigida para a senhora de corpo desprovido de forma. Sua camiseta grudada ao corpo parecia andar junto com ela enquanto a parte inferior era pesadamente carregada.

Ela usava um legging verde claro. Lembrei-me de uma pera madura!

Encerrei minha estória com pena da mulher pera.

Fugazmente, senti que eu não estava voltada para o seu corpo pesado e sim para a condição de um corpo pesaroso.

Será mesmo um fato?

Entrei no supermercado cumprindo o tempo cotidiano.

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