Li sobre a lápide nº12 inscrita no mármore branco a frase: “ a última morada é mais um quarto de passagem”.

Toquei a companhia da casa ao lado, separada do cemitério por uma portinhola de ferro em arco florida: dama da noite, reconheci.  Precisava saber o que a morta, de nome Isaldina de Moraes, quis dizer com aquela frase. Encontrei duas senhoras que me receberam contentes, em saber que alguém havia reparado naquele pequeno cemitério.

Sahra e Magda eram profissionais na prostituição. Sempre trabalharam na mesma avenida porque haviam se conhecido no mesmo ônibus, expulsas de casa, com nenê na barriga. Foram parar na pensão de D. Isaldina onde viveram por mais de 20 anos.

Quando Sahra completou 40 anos e Magda 38, cansadas da concorrência dos travestis e da insegurança que rondava o ponto, fizeram as contas e decidiram se aposentar. Combinaram que iam propor para D. Isaldina construírem mais quartos e que os explorariam como cafetãs, experientes que eram no ramo do negócio.  O lucro da empreitada seria dividido meio a meio com ela.

À madrinha e amiga, solteira de vida inteira, prometeram cuidar dela como filhas para assim retribuir, um pouquinho, a mãe que foi para as duas sem nunca as recriminar pela profissão que exerciam. Passaram-se ainda muitos anos. Sahra e Magda, agora avós, criavam os netos nos fundos do sobradinho onde construíram uma casa de vários cômodos para abrigarem toda a família:  D. Isaldina, filhos, noras, netos e elas mesmas.

Um dia, D. Isaldina morreu. Em seu testamento deixou o sobradinho para seus afilhados e, para Sahra e Magda, um terreno baldio ao lado e revelou, por escrito, pela primeira vez, ter sido um dia, ela também, prostituta e como tal expressou alguns desejos em seu testamento:

Que Magda e Sahra, construíssem um pequeno cemitério onde queria ser a primeira enterrada, num jazido de mármore ornamentado com o Coração de Jesus esculpido bem no alto da pedra e com a inscrição da frase que eu havia lido: a última morada é mais um quarto de passagem.

Pediu que elas lá construíssem o seu próprio jazido para serem enterradas ao seu lado porque já estava com saudades.

Pediu que o nome do cemitério fosse batizado de “Ultima Morada das Marias”, um cemitério onde só prostitutas pudessem descansar em paz.

Finalizou, convicta, de que esta era a única maneira de todas as mulheres da mesma profissão ficarem sempre juntas, vizinhas, uma cuidando da outra mesmo se os cômodos fossem apenas de passagem.

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