Menina eu passava uma temporada em sua casa. A imagem gravada na retina é dela, de costas, quase um duende, mexendo a borbulhante geleia com uma comprida colher de pau, os passarinhos vindo bicar os restos de manteiga no parapeito da janela da sua cozinha.

Meu encanto era com seu gestual de malabarista ao escumar, com a colher de pau, uma fitinha azul amarrada na ponta, a fina camada branca que ia se formando na superfície da geleia

Atravessando o olhar para além do parapeito dos passarinhos, eu via o “green house” marrom, escuro e frio, coberto de hera seca no inverno. Lá eram guardados, ordenadamente enfileirados, os potes de geleia do verão anterior, as etiquetas inscritas com letra redonda e pequenina: geleia de uva, safra 1954. O processo de desidratação das frutas recém-colhidas também era lá estocado, tornando este galpão um universo de temperos exóticos. O mais forte, o aroma agridoce que adentrou nas minhas narinas e nunca mais as deixou.  Ali poderia ser o subsolo de um palácio de pedra onde a princesa brincava solitária com suas bonecas.

No verão, R.W. esperava que as maçãs recém-colhidas murchassem, sinalizando a entrada do outono. Eram maçãs amarelas que, na hora de irem para o fogão, mais pareciam faces de mulheres do campo que tomaram sol a vida inteira: enrugadas, aparência de pergaminho grosso e manchas escuras.

As laranjas sanguíneas, em contraparte, não perdiam a beleza, sua pele apenas iniciando o envelhecimento, como uma jovem madura e cuidada. As frutas vermelhas, morangos, amoras, myrtiles, como mulheres jovens sem paciência para amadurecerem, colhidas, tinham que ir direto para a panela.

Havia uma panela para doces e outra para salgados e assim também eram classificadas as colheres de pau. Uma para mexer geleias e outra o guisado. Cada qual com um lacinho de cor diferente no cabo indicando sua utilização correta.

Entrava e saía o outono, lá estava R.W. enrolada no avental xadrez verde e branco, olhando, concentradamente, o ponto certo que uma geleia tem que ter: transparente e levemente consistente, nem pastosa nem líquida. Para saber se era hora de tirar a panela do fogo, ela pingava uma colherada no mármore frio, depois passava o montinho de geleia na palma da mão, experimentava e sabia calcular, exatamente, quanto tempo ainda faltava para atingir a perfeição.

A geleia que eu mais gostava era a de laranja com pedacinhos da casca introduzindo um gosto azedo na boca quando mascada.

Havia também a tradicional torta de chocolate recheada com geleia de damasco e cobertura de chocolate brilhante quando de alguma ocasião especial. As geleias de R.W. serviam tanto para doces quanto para acompanhar  carnes de boi ou de caça. O segredo – jamais revelado -, era que, depois de prontas, algumas ainda recebiam um tratamento especial, com mais especiarias, além do açúcar. Os convidados para a degustação tentavam acertar experimentando montinhos da iguaria, levando-os à boca, estalando a língua e fechando os olhos. Ninguém acertava e caso acertasse, R.W. negava. Quando pediam pela receita, ela a ensinava errado. Era certamente uma das melhores geleias – e suas variações – produzidas na Inglaterra.

R.W levou suas artimanhas junto quando faleceu, mas me deixou o segredo de sua especialidade.

A memória de R.W. chega até mim através do olfato, tato e papilas, as três transpirando do seu Livro de Receitas do qual me apossei  apaixonadamente. Somente eu a vi de costas, virada para o parapeito da sua cozinha onde os passarinhos bicavam a manteiga.

Este precioso legado, de capa de couro verde com as inscrições douradas, apagadas, onde outrora estavam gravadas as iniciais R.W., está na prateleira mais importante da minha biblioteca.

Leio o Caderno de Receitas de R.W. como se fosse um livro porque ele contem anotações, algumas ácidas sobre quem as degustou, para quem ela passou a receita errada ou mentiu, quais correções deveriam ser feitas na hora do preparo ou da colheita, qual recipiente mais adequado para guardá-las ou ainda qual o segredo da desidratação.

Escrito com letra caprichada e miúda, as páginas pautadas trazem manchas amareladas – talvez resquícios da minha inexperiência à época ao ajudá-la, desajeitadamente, a mexer a geleia. Borrões de tinta aqui e ali encobrem ou uma informação sobre a quantidade de açúcar ou o preparo da laranja vermelha ou como retirar a espuma branca sobre a superfície das frutas em cozimento lento.

Sei fazer geleias de frutas e orgulho-me em contar que aprendi com minha avó, R.W.

Sei hoje que não há substituto para o prazer simples de ficar atenta ao ponto certo da geleia.

Igual à maturação das frutas plantadas na primavera, maturadas no verão e colhidas no inverno, necessitamos de tempo e paciência para acertar o ponto certo da geleia perfeita a ser espalhada na torrada quente com manteiga no café da manhã.

 

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