A história de Sahra é infinita de possibilidades, mas Sahra morreu e me deixou com uma carta na mão.

Sahra foi minha vizinha durante anos e eu a conhecia apenas pelo seu bom dia, sua incansável labuta junto a um canteiro, sob qualquer tempo e estação.  Lembrava de sua existência, todos os dias, em ponto, as 6horas da tarde quando o som de seu órgão tocava a Ave Maria de Schubert.

Um dia ela deixou uma carta na minha caixa de correio com um pedido escrito em letra ginasial fora de qualquer propósito: que eu tao amável em providenciar seu enterro no dia em que não mais ouvisse o som do órgão tocar. A partir daquele dia, mesmo se não o desejasse, deixei, um dia sequer, de conferir a exatidão do meu relógio. Compulsivamente olhava o relógio e esperava, as 6 horas em ponto, o som de Sahra infiltrar-se pelas frestas de minha casa. Tornei-me cativo, refém, escravo de uma música e do destino de uma vizinha.

Durante anos, assim como seus cabelos organizados impecavelmente num coque amarrado com uma fita de gorgorão azul, Sahra me fez esperar obsessivamente pelo dia do silencio. Quem deixou de viver fui eu! Mas como negar um pedido tão singelo, tão cheio de confiança em um coração alheio? Não sei se aceitei por caridade, fé, ou simplesmente por ser um vizinho, honesto, tão pobre como todos ali da vizinhança. Morávamos grudados uns aos outros, as casas geminadas, o aluguel baixo, descontado diretamente na folha de pagamento das Indústrias Matarazzo a quem pertencia as casas. Todos ali trabalham nas fábricas ao redor de nossas casas exceto Sahra que só cuidava de seu jardim e tocava, para a vizinhança, na hora do Agnus Dei, a Ave Maria de Schubert.

A cada dia eu ouvia – aliviado – o som do órgão e imaginava ela só saber tocar aquela música. Um dia perguntei, cautelosamente. Ela respondeu que comprou o órgão para aprender apenas aquela música tocada na missa em homenagem aos seus pais que morreram juntos ao caírem de um despenhadeiro onde foram buscar flores silvestres para fazerem remédios de cura para pequenas dores. Seu pai não trabalhava nas Indústrias Matarazzo assim a casa foi a única herança que recebeu. Eu só havia perguntado sobre a Ave Maria mas veio esta enxurrada de informações que eu não tinha interesse em saber.

Continuei aguardando o silencio das seis horas, mas nunca mais lhe dirigi a palavra apesar de curioso para saber por que eu tinha sido o escolhido para enterrá-la. Provavelmente se eu perguntasse responderia contanto a história de toda a sua família ou a sua desgraça de ser absolutamente só neste mundo. Fiquei imaginando que a segunda hipótese era a mais provável, pois inspirava orfandade. Usava sempre o mesmo modelo de vestido: algodão com miúdas margaridas azuis e galinhos verdes. O vestido era cortado em uma única linha reta terminando em um tipo de babado pobre na altura do seu pescoço. Eram longos e não demarcavam os seios. Nos dias de inverno o casaco era invariavelmente azul. Não usava cor alguma no rosto e assim seu cabelo aloirado desbotado só se realçava pela fita azul e o coque severíssimo sobre a cabeça. Pude observar que trabalhava no jardim com luvas brancas. Sua pela era transparente, marmórea. Cheguei a cogitar que lavava tanto as luvas como sua pele com Cândida, usava meia soquete também muito branca e sapato baixo preto. As poucas vezes que levantou os olhos do canteiro para responder ao meu bom dia, vi que eram de uma cor indefinida ao contrário do seu canteiro que exalava continuadamente perfume das mais variadas flores coloridas.  Uma profusão de cores, como na palheta de um pintor.

Como o seu jardim, as paredes da casa de Sahra encantavam: eram caiadas de amarelo, janelas azuis celestes em torno uma faixa laranja. Não sei dizer se Sahra era bonita ou não. Sei dizer que em sua volta criava beleza para todos que por ali passavam. Talvez por esta razão tornei-me tão fiel ao seu estranho pedido: uma forma de agradecer seu cuidado e dedicação ao jardim e sua casa que se destacava das demais casas cinzas e sujas. Nunca vi uma pessoa entrar ou sair de sua casa; não consegui identificar no varal as roupas que acabei de descrever. As venezianas estavam sempre abertas, mas uma cortina branca de algodão, leve, mantinha todos os segredos da casa longe dos curiosos. A única manifestação de vida era o som do órgão que tocava das 6 às 6.25 em ponto.

Eu conhecia as estações do ano apenas observando a troca que Sahra fazia da terra e do tipo das mudas que replantava e eu sabia que logo mais as flores nasceriam fulgurosas pois o cheiro de adubo pairava, por dias, no ar.

Neste verão, vi Sahra trocar as margaridas murchas por rosas cor rosa estranhei a escolha porque não era seu hábito. Escolhia sempre flores do campo. As rosas deveriam florescer na primavera.

 

Dia 30 de setembro não ouvi o órgão de Sahra tocar. O meu sangue congelou, parei de respirar, senti meu coração bater prestes a explodir. Paralisado com a perspectiva da minha situação que por tanto tempo temi, não sabia o que fazer. Corro para ver se Sahra morreu ou aguardo mais um dia para que o fato se confirme.? Optei por esperar, mas a curiosidade venceu.

Procurei a chave que acompanhava a carta de Sahra. A chave da porta de sua casa, pensei. Três passos e eu já me encontrava em frente ao canteiro onde reparei nas três rosas desabrochando e frente à porta da casa. Mas ela estava apenas encostada. Entrei e finalmente, meus olhos adaptados à escuridão, deparei-me com um cenário teatral.

Sahra estava estendida ao lado de dois esqueletos, nas mãos um botão de rosa, nas mãos ossudas dos esqueletos, um maço de malva. A cama era de casal, milimetricamente arrumada com um lençol azul claro combinando com o vestido de Sahra e as malvas. Os esqueletos estavam vestidos. Um de terno e gravata o outro com um vestido. A gravata era vermelha, o terno preto. O vestido pontilhado de flores do campo coloridas, certamente bordadas à mão de tão perfeitas.

O medo apoderou-se de mim e por um instante pensei em chamar a policia. Passado alguns segundos acostumei-me àquele quadro e cheguei a reprimir uma gargalhada, – certamente nervosa – quando meu olhar recaiu sobre duas tiras de veludo vermelho presas cada uma por um cordão de ouro, uma chave em cada tira. Sahra matou os pais, os colocou no armário e guardou as chaves?

Eram seu marido e a cunhada?

Seus irmãos?

Desconhecidos?

Havia eu aceito enterrar uma assassina psicopata, jardineira de laço azul de gorgorão no alto do coque, doce e singela?

Comecei a andar pela casa muito a vontade por ela  ser igual a minha. A casa tinha dois quartos e um banheiro no piso superior. Subi as escadas, e cautelosamente espiei para dentro do quarto maior. Não havia cama (certamente Sahra levara a dela para a sala de visitas) mas havia um criado mudo. Ao me aproximar deparei com um livro cujo título era Maria Madalena ensimesmada sobre uma foto da Pietá de Michelangelo. Do lado, um relógio parado marcando 11 horas. Havia ainda uma cômoda de madeira escura, com puxadores entalhados e sobre a qual encontrei uma boneca com sapatilhas vermelhas, sentada, graciosamente, em uma cadeira miniatura, uma caixa de baquelit rosa com um tampo de vidro e uma bailarina pronta para ser acionada. Ousei dar corda, necessitado de quebrar o silencio mortal. Ao som do Lago do Cisne abri outra caixa tampada e de lá saltou um João Bobo intruso, pegando-me desprevenido. Uma marionete do Pinóquio, dobrado em dois, em madeira, no passado, testemunha de cores vivas. Uma caixa de joias esmaltada, vazia, com jeito de italiana. Conclui que seus pais foram imigrantes. Será que a história do precipício dos pais, atrás de flores silvestres, – este costume não é brasileiro, – então poderia ser verdade? Mas ela foi recolher os pais embaixo do precipício e colocou as flores de malva colhida pelos pais entre seus dedos de esqueleto?

Nada fazia sentido! Abri a porta do segundo quarto. Neste momento achei que desmaiaria: um perfume de flores, fortíssimo – o mesmo que trespassava do canteiro para a minha casa – me atingiu em cheio. Tentei acender a luz. Não funcionava. Apavorado com que poderia encontrar, abri as venezianas para que o quarto fosse iluminado pelos postes da nossa rua. A luz penetrou em um único facho espalhando-se tenuamente nos quatro cantos. Foi nesse momento que tropecei sobre três caixões ricamente entalhados com detalhes em ouro, sobre um fundo amarelo e azul, igual a pintura da casa: um espetáculo dantesco. Rapidamente comecei a imaginar estórias para encaixar a história.  Os caixões foram ardilosamente pintados com as mesmas cores da casa para que, caso alguém os visse lá dentro pudesse se confundir? Os dois esqueletos ficaram anos estendidos dentro deles e o terceiro era para Sahra? As flores cultivadas por ela com tanta dedicação eram destinadas para fazer uma mistura cheirosa e colocadas neste quarto para que os corpos não fedessem? E a pior das perguntas surgiu ao eu imaginar ter que colocar os dois esqueletos cada qual em um caixão, Sahra no outro e enterrar os caixões, sem chave, no jardim. Apalpei a chave da carta enfiada no meu bolso: a do terceiro caixão?!

Sai em busca de alguma indicação, um testamento, algum escrito que me indicasse o que fazer. Peguei as duas chaves, voltei para perto de Sahra e me debrucei para cheirar a rosa em suas mãos: exalava cheiro de rosa. Dirigi-me ao órgão e o analisei. Ele era automático! Todos estes anos ele tocara sozinho, pontualmente as 18 horas, a Ave Maria de Schubert.

Com tanta informação desencontrada, cansado, decidi voltar para casa e resolver, no dia seguinte, o que e como cumprir o pedido de Sahra.

As 18horas deste dia, milagrosamente o órgão voltou a tocar. O órgão continuava a tocar sozinho ou seria o fantasma de Sahra que ainda não enterrei? Assaltou-me um sentimento de abandono horrível: como vou viver quando ele não mais tocar as 18 horas? Subitamente percebi que eu havia passado a viver o dia esperando ele acabar unicamente para ouvir Sahra tocar.  Havia me apaixonado por ela!

Sentei-me ao pé da cama, absolutamente a vontade entre os mortos. Empurrei os esqueletos para o canto da cama e me deitei ao lado de Sahra, peguei sua mão e comecei a pensar sobre o que faria no momento seguinte. Lembrei dos três caixões do quarto, da carta, do jardim, do órgão. Pensei na minha vida de trabalhador, na solidão que deixei de sentir depois que comecei a esperar por Schubert e tomei uma decisão: colocaria Sahra em um dos caixões, o esqueleto de terno e o de vestido no outro, e eu mesmo me deitaria no terceiro e deixaria o órgão tocar. Mas havia um problema. Como eu morreria?

Voltei a pegar a mão de Sahra e inspirei o perfume da rosa.

Na primeira inalação veio com cheiro de rosa, na segunda, um cheiro frio e metálico que queimou as paredes das minhas narinas esfriando a garganta. Era veneno.! Foi quando eu lembrei que ainda tinha que subir as escadas carregando Sahra, os esqueletos e ainda colocar-me dentro de um dos caixões, fechar as tampas e morrer. Foi o que eu fiz, rapidamente, e antes de fechar o caixão de Sahra e dos esqueletos, dei mais um forte aspirada na rosa. Deite-me e antes de esperar a Morte lembrei que havia cumprido o pedido de Sahra. Longinquamente ainda surgiu a pergunta porque Sahra havia escolhido à mim para ser o seu coveiro, mas não tive mais tempo para me responder. Só sei que estive presente na hora de minha morte!

O órgão toca até hoje.

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